Mais uma fórmula mágica para inclusão digital proposta por grandes empresas termina no quintal poluído de nosso planeta.

A AMD naufragou com o PIC, um computador comercializado pela Telefônica como solução de acesso à internet para o grande público de excluídos digitais do Brasil. O equipamento usava um televisor como monitor e a conexão era feita por linha discada, preferencialmente pela conexão da iTelefônica, o provedor gratuito da Telefônica.

Muitas empresas e grandes corporações se vêem atraídas pelas oportunidades de mercado que a exclusão digital no Brasil oferece. Afinal mais da metade da população não possui computador nem acesso à internet, o que leva os grandes executivos das telecom e mega-empresas de informática a sonhar com milhões de dólares em consumo socialmente responsável! Um verdadeiro paraíso de oportunidades, sem dúvida. Mas geralmente terminam por errar na fórmula.

Neste 13 de novembro a AMD publicou, na divulgação de seus resultados trimestrais, que não planeja mais fabricar o Personal Internet Communicator (PIC), seu computador de baixo custo para a navegação na internet.

Desde maio deste ano o projeto começou a fazer água. A Telefônica deixou de ser responsável pelas vendas do PIC, que passou a ser comercializado por lojas eletrônicas. As dificuldades em tornar o produto lucrativo fizeram a AMD descontinuar o projeto.

Entretanto resta uma pergunta. O que vai ser feito das milhares de unidades comercializadas? Até quando o suporte e garantia ao produto serão mantidos? Como ficam os consumidores que agora tem um ‘Frankenstein’ eletrônico em casa, um computador que não aceita upgrade e não tem mais valor de mercado? Alguém aí quer comprar um PIC usado? Pois é…

Desse modo o destino destes equipamentos será uma caixa em algum armário, depois o lixo doméstico recolhido por um carroceiro e finalmente o aterro sanitário da cidade. Ou seja, a iniciativa de mercado da AMD e da Telefônica acabaram se tornando mais uma montanha de lixo eletrônico sem destinação ambiental, contaminando progressivamente o planeta.

Para não ficar só na crítica: que tal as empresas que pretendem gerar lucro financeiro com a inclusão digital no Brasil começarem a perceber que investir apenas em máquinas não vai resolver o problema? É preciso compreender que inclusão digital é um processo que acontece entre pessoas, a partir de educação e acompanhamento. Tivesse a AMD e a Telefônica investido em gente para levar o PIC até as casas, escolas e associações do Brasil, talvez as vendas não estivessem tão baixas, mesmo para um elefante branco como esse ‘Personal Comunicator Tabajara’.

Quanto à questão ambiental, já está mais do que na hora dos legisladores brasileiros entenderem que os eletrônicos fabricados e comercializados no país devem ter incorporados em seu cilo de vida útil, um compromisso legal das lojas e fabricantes em relação ao descarte ecologicamente responsável destes equipamentos, certo?

INFO Online – Plantão Info – AMD anuncia fim do micro popular PIC – (13/11/2006)

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  1. alblum

    O insucesso deste computador talvez se deva a inadequação do mesmo à portaria governamental (Portaria 624) que define o Programa Cidadão Conectado e que também foi responsável pelo aumento na inclusão digital dos brasileiros nos últimos dois anos.

    Essa Portaria dava acesso ao um financiamento subsidiado na Caixa e no Banco do Brasil e sem esse “suporte” governamental a AMD talvez não tenha conseguido atingir seus objetivos corporativos em vendas ao público.

    Responder

  2. lalgarra

    Realmente o PIC não se enquandra nem de longe nos requisitos da portaria do Programa Cidadão Conectado. Em uma rápida comparação:

    Portaria exige: Processador x86 1.4Mhz, expansão de memória até 1Gb, 2 controladoras de IDE, placa de rede 10/100 e sistema operacional Linux.

    PIC: Processador AMD Geode 500Mhz, apenas 128Mb de memória sem possibilidade de expansão, sem controladora IDE, sem interface de rede e com sistema operacional Windows CE.

    Desse modo o PIC não teve acesso ao crédito subsidiado disponível àqueles que se enquadraram na Portaria 624 e isso pode ter sido o golpe de misericórdia no projeto da AMD/Telefônica.

    Responder

  3. ASF

    IMHO o principal problema não foi a falta do peopleware e sim a inconsistência do projeto do PIC.

    Acessar a Internet usando um TV analógica e linha discada é dose! O PIC ainda possuia um hardware limitadíssimo, sem nenhum recurso inovador, nenhuma capacidade de expansão e vinha sem armazenamento em massa.

    Além de tudo isso com um sistema operacional proprietário, limitado e sem capacidade de expansão.

    Quem em seu juízo perfeito poderia pensar que ele daria certo? Só mesmo pensando que as pessoas (consumidores) são idiotas.

    A questão ambiental é relevante e certamente não se limita a esse caso.

    Abraço,

    ASF
    http://antoniofonseca.wordpress.com

    Responder

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