Originally uploaded by murplej@ne.

O significado de uma palavra se estabelece por uma definição. As definições estabelecem significados para as palavras, estas definições são compostas por outras palavras e portanto é correto afirmar que cada palavra se apresenta a partir de um outro conjunto de palavras, e assim por diante.

Normalmente pensamos que escutamos as palavras e as entendemos. Nossa capacidade de organizar as palavras em unidades maiores nos permite escutar frases. Organizando frases podemos escutar narrativas e histórias. Mas sempre tudo se reduz a nossa compreensão das palavras. Em nossa interpretação tradicional as palavras rotulam, nomeiam e identificam objetos, acontecimentos, conceitos, etc.

Ocorre que não sabemos o que é disparado na emoção e na razão de uma pessoa que escuta uma palavra que dizemos! Quando digo “liberdade”, o que você ouve? E quando você me explica: “Liberdade é um direito de todos”. O que eu ouço? Não sabemos.

Dizemos o que dizemos e os outros escutam o que escutam; falar e escutar são fenômenos diferentes.

Este é um ponto central. Normalmente pressupomos que o que escutamos é aquilo que foi dito, e que o dissemos foi o que as pessoas escutaram. Geralmente sequer nos preocupamos em tentar conferir se aquilo que escutamos corresponde àquilo que alguém está nos dizendo.

Falar e ouvir, ou calar e repetir?

Grande parte dos problemas que enfrentamos em nossa comunicação surge do fato de que as pessoas não percebem que escutar é diferente de falar. E quando o que é dito não é escutado da forma esperada, as pessoas preenchem essa “falha de comunicação” com julgamentos pessoais sobre como são as outras pessoas, o que complica ainda mais a comunicação. Algo do tipo: “Ele não me entendeu porque é burro! Ou arrogante. Os displicente.” Por exemplo.

Então cada vez mais as pessoas se armam de argumentos, referências, fatos e certezas antes de falar qualquer coisa para que apoiados em tudo isso, não estejam sujeitos aos julgamentos das outras pessoas. O resultado é que ninguém mais fala por si, não dizemos mais o que pensamos ou pior, não nos arriscamos a dizer nada, para evitar julgamentos e problemas.

Apesar disso tudo temos coisas a fazer juntos!

Cada vez que dizemos algo estamos assumindo um compromisso e devemos aceitar a responsabilidade social do que dissemos. O falar nunca é um ato inocente. Cada ato linguístico se refere a um conjunto de compromissos sociais diferentes.

No mínimo quando dizemos algo estamos assumindo um compromisso com a verdade do que dissemos, ou seja, nos comprometemos com a possibilidade de proporcionar um testemunho que confirme nossa afirmação, ou de apresentar evidências aceitas pela comunidade a que pertencemos de que o que dissemos é verdade.

Temos como comprovar, caso seja preciso, a veracidade de cada palavra do que dizemos? Se não, que tal colocar no início da frase algo do tipo: “Pelo que eu sei…”, “Do modo que estou entendendo”, “Por tudo que vi me parece que…”.

Não estou aqui propondo uma nova classe de frases para tornar relativo tudo aquilo que dizemos. O que digo é que, se não podemos ter certeza de que o que estamos falando está sendo ouvido do mesmo modo que dizemos, então é prudente entender que nossas certezas só servem para nós mesmos, e não devem servir de base para a construção de nossos acordos sociais.

As certezas que precisamos em nosso dia-a-dia para estabelecer nossos acordos mínimos podem ser construídas em grupo. A relatividade de nossas palavras pode ser compartilhada em conversações. Estas conversações estarão construindo nossos espaços de convivência. Estes espaços de convivência nos proporcionarão o reconhecimento do “outro” como alguém tão legítimo como eu mesmo. E teremos então uma relação verdadeiramente colaborativa, amorosa e natural.

Em uma sociedade onde a cultura da competição e reconhecida como correta, pessoas que não tem certeza podem ser vistos como fracos, inseguros e despreparados. Em uma sociedade onde a colaboração é vista como um bem maior, a incerteza de alguém é o ponto de partida da construção de um outro, e assim por diante.

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  1. Fabio

    Muito bom seu texto…
    Tomei a liberdade de imprimir para uma reunião como parte do tema que usarei.

    Comunicação é tudo

    Responder

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