What’s a gun for Dad?

Originally uploaded by Melvind.

Sexta à noite meu filho foi dormir na casa de um amigo. Eles iriam para a escola juntos no dia seguinte. Meu filho já tem dezenove anos e ficou com nosso carro naquela noite. Quase às seis horas da manhã toca o telefone fixo na cabeceira da cama e eu atendo. A voz do meu filho, inconfundível, declara:
-Pai…Pai…Me ajuda!
Ele ofegava, chorando.
-Filho?! O que houve, onde você está?
A mãe acorda aflita e percebe em minha voz a gravidade da situação.
-Pai..Pai eu fui assaltado!
-Como? Onde você está, filho?
-Numa casa abandonada, Pai!
E aqui começa minha história. Naquele momento meu coração estava saindo pela boca. A mãe sentada da cama chorando, quase desabando. A voz era do meu filho, sem dúvida! Mas quando ele disse a palavra “abandonada” algo disparou dentro de mim.
-Filho. Me fala seu nome…
Uma pausa. Nem uma respiração. O fone troca de mão e outra voz declara:
-Escuta aqui ô meu…
Um voz firme. Ameaçadora. Pronta para ditar as condições para que eu visse meu filho novamente, ou não. Não hesitei.
-Filho-da-puta!
E desliguei o telefone.
Enquanto acalmava a mãe e ligava para o menino minha cabeça funcionava a um milhão. O menino estava bem! Acordou com a segunda ligação que fiz pro seu celular e confirmou que estava mesmo na casa do amigo. A mãe só descansou quando falou com o rapaz.
Ali, sentado no sofá, pude perceber dois processos distintos em mim. De um lado uma consciência de que estava tudo bem. Em paralelo uma preocupação infinita pela vida de meu filho que estaria sequestrado e em perigo! Dois domínios distintos! Praticamente duas realidades!
Mas vamos do início. Como foi que eu percebi que era um golpe? Claro que todos sabemos como funciona o truque e que estatisticamente seremos vítimas um dia desses. Mas eu não estava racionando nada disso quando percebi a armadilha. Foi a expressão “casa abandonada” que me despertou. Mesmo sob aquela enorme pressão algo dentro de mim pensou:”-Ninguém diz “casa abandonada”. A não ser alguém que sempre passa por uma determinada casa e, no decorrer do tempo, a distingue como “casa abandonada”. Perto de onde moro já vi algumas casas fechadas, esquecidas, deterioradas e, só depois de muito tempo registrei uma dela como “abandonada”. Tudo isso me passou pela cabeça e uma pergunta surgiu: -E se não for o meu filho?
Quando eu perguntei seu nome e a outra voz interviu percebi qua havia um roteiro sendo montado na medida das minhas reações. Vi que estava em outro espaço de relações. Deixei de ser uma vítima e me senti um trouxa. Então desliguei o telefone desse modo, reagindo sem pensar, mas pensando.
Depois que tudo passou, sentado no sofá, me vi imerso na linguagem. Estava ali vivendo uma experiência de linguagem. As palavras, a voz no telefone e meus pensamentos construíram e desmontaram realidades em repentinos intervalos de tempo. E au ainda podia sentir o eco, a reverberação de tudo isso em mim. Naquele momento meu filho estava bem, e também estava em perigo, e eu estava na sala me acalmando, e refletindo sobre as realidades simultâneas que experimentava, e aflito por sentir que meu filho estava sendo ameaçado… Um carrosel, um verdadeiro carrosel de razão, emoções e linguagem. E afinal, quem era eu naquele exato momento? E quem estava percebendo tudo isso?
O que posso dizer, meus amigos, é que havia alguém lá comigo, me observando inteiramente, e esse alguém era eu!
Por isso tomem cuidado, mantenham seus celulares ligados para contato rápido com a família, desconfiem de telefonemas no meio da noite e leiam Humberto Maturana:A Ontologia da Realidade.

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  1. efeefe

    é fogo… eu passei por uma experiência parecida há dois ou três anos em sampa. um cunhado ligou pra casa em São Paulo e perguntou “minha mãe tá aí?”. respondi que não, por quê? ele falou que achava que ela estava sendo sequestrada. desligou. tentei ligar pro celular da mãe e nada, depois liguei de novo pra ele, e atendeu um cara com sotaque diferente e muito agressivo. no instinto, peguei um facão e fui até a casa deles, que ficava perto. na portaria, o guardinha falou que ela tinha dito que ninguém incomodasse. falei que era uma emergência, tomei o elevador com o coração na boca e bati à porta. a faxineira estava desesperada, e estavam na casa a mãe do meu cunhado com um amigo, se preparando pra ir ao banco sacar dinheiro que os “seqüestradores” DELE tinham pedido. saquei o golpe, e liguei pro escritório onde ele trampava. o celular dele tinha sido clonado, e ao mesmo tempo tinham convencido a mãe dele a desligar o celular dela. no meio da desinformação e tensão, eles conseguiram que ele comprasse no shopping mais próximo uns 100 reais de créditos pra celular pré-pago e passasse os códigos, depois jogasse no lixo.

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