As conversações acontecem a partir da diversidade. Pessoas diferentes com opiniões distintas tem muito a compartilhar em suas conversações.

Cada um de nós tem uma maneira única de ver e organizar o mundo ao seu redor e essa experiência individual é sempre íntima e intransferível. Seguimos percebendo a realidade a partir de nossa história pessoal, nossa cultura familiar, nosso contexto social e mais uma série de fatores que faz com que vejamos a cada momento apenas aquilo que cada um vê, e nada mais. Não temos portanto uma realidade compartilhada, um ambiente percebido por todos como nossa única realidade. Estamos criando mundos, cada um de nós, a cada instante vivido.

Isso não significa que as coisas que estão ao nosso redor não estejam de fato lá, claro que estão. Somos afetados por tudo que nos cerca. O clima, as interações com outras pessoas, tudo pode nos tocar e disparar em nós em uma reação. Medo, esperança, desejo ou tristeza são apenas nossas reações ao meio em que vivemos.

E esse meio em que vivemos está repleto de pessoas! Gente prá todo lado. O comportamento das populações do outro lado do mundo pode afetar nossa vida. A atitude do nosso vizinho pode afetar a nossa vida. O que acontece em nosso trabalho, família ou bairro geralmente afeta nossa vida.

Então vivemos em interações com pessoas e com o mundo, e vivemos isso ao nosso modo, experienciando tudo a partir de nós mesmos, com grandes dificuldades em compartilhar nossas dimensões interiores com aqueles que estão ao nosso redor.

Surgem então as conversações. Em algumas ocasiões podemos nos sentar, ouvir e falar sobre tudo isso que se passa dentro de nós, e até mesmo perceber um pouco do que ocorre com quem conversamos. Histórias pessoais, percepções individuais, emoções e sentimentos vividos e relatados por alguém nos colocam em contato com dimensões humanas que estão sempre além de nossa capacidade em ver e sentir as coisas de nosso único e restrito ponto de vista.

Claro que tudo que ouvirmos em nossas conversações será ouvido a partir de nós mesmos, com nossas lentes individuais de ver o mundo. Não há como ouvir de modo isento o que alguém nos diz, e nem mesmo o que você diz pode ser ouvido por você mesmo sem que aí estejam os seus critérios do que é válido ou não!

Geralmente ouvimos e o que achamos válido deixamos entrar, o que não condiz com o que pensamos, deixamos de fora e ainda explicamos de algum modo porque aquilo não serve.

E em relação a quem nos ouve as coisas funcionam do mesmo modo. Somos responsáveis pelo que dizemos, mas não podemos determinar em nada como as pessoas nos ouvem.

Não há como alterar este estado de coisas, isto tudo tem a ver com o modo que percebemos o mundo, está determinado por nossa estrutura enquanto espécie e organizado pelo nosso sistema nervoso, que é fechado. Nada entra em nossa percepção, as coisas apenas disparam processos de percepção interna de acordo e partir do que nós já somos. Isso a ciência já está aprendendo a entender graças ao trabalho de Humberto Maturana em sua “A árvore do conhecimento”.

O que podemos fazer é observar tudo isso. Estarmos atentos ao fato de que nossa escuta acontece a partir de determinadas condições. Colocar uma pergunta, manter uma questão em aberto sobre tudo aquilo que dizemos e ouvimos. Uma pergunta que pode nos manter em uma posição consciente sobre como tudo é muito relativo. Um ponto de interrogação que não precisa ser respondido, apenas serve para nos alertar para atentarmos a como fazemos o que fazemos? A partir do que dizemos o que dizemos. De onde dentro de si alguém nos diz o que diz?

Experimente algumas vezes observar a si mesmo. Formule perguntas como estas enquanto vive, conversa ou trabalha. Mantenha sua atenção no fluxo de seu viver cotidiano e nas interações com as pessoas ao seu redor. Veja todos nós apenas tentando levar nossas vidas, cada um ao seu modo, da melhor maneira possível, estritamente dentro de nossas possibilidades. Faça isso algumas vêzes e tenha certeza que nada ao seu redor irá ser diferente apenas por você perceber o mundo assim.

Talvez apenas você se modifique, um pouco, por algum tempo. Suas emoções, suas reflexões e sua subjetividade tão imperceptível. Observe-se, veja você mesmo e constate que nossa consciência é tão sensível e delicada que, cada vez que olhamos para ela, ela se modifica instantaneamente.

Ao fazer isso, se observar, por você se transformar a partir do que está vendo, muitas coisas ao seu redor também se modificarão. E talvez o resultado disso tudo te indique que, por pura curiosidade, você acabou fazendo um ato de amor, por você mesmo e por todas as pessoas ao seu redor.

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