Estes dias lendo Humberto Maturana em sua Ontologia da Realidade (p.298) tive uma compreensão sobre esta afirmação. Geralmente o espaço de discussão sobre temas como estes é evitado prudentemente por pessoas que convivem em uma determinada dimensão grupal. Colegas de trabalho, amigos em um bar, companheiros de viagem, marido e mulher evitam conversar sobre política, religião e futebol porque sabem que inevitavelmente a conversa vai gerar desconforto em poucos minutos.

Isto porque normalmente discutimos acreditando que falamos de uma mesma verdade objetiva e racionalmente inegável. Nossa educação e cultura nos formaram na crença de que a realidade existe independente de nós. Só a pouco tempo é sabido que a realidade não é nada mais do que a percepção das coisas a partir de cada um de nós. Cada um conhece o que vê a partir da vida que viveu em seu sistema de crenças pessoais e íntimo. Não existe uma realidade única, compartilhada por todos.

Nem mesmo aquilo que nossa ciência comprova é a realidade única. A ciência apenas explica o mundo de um modo coerente com ela mesma. A matemática prova na matemática que dois mais dois são quatro. Mas quatro laranjas são quatro laranjas apenas quando existe alguém para perceber isto. Nada é em si mesmo. Tudo surge a partir de alguém que observa.

Não que as laranjas não existam, existem, claro! Mas são o que são apenas para nós, humanos que temos uma história, uma palavra e um operar de relações com a laranja. Para uma baleia, o que é uma laranja?

Então vivemos cada um sua própria realidade mas nos encontramos tendo que coordenar nossas ações todos os dias. Vivemos em situações onde nossos acordos nos permitem viver juntos e conviver da melhor maneira que podemos. Nos encontramos em nossa linguagem e ajustamos nossas condutas uns aos outros para podermos viver juntos, na mesma cidade, por exemplo.

Posso dizer que sei dirigir um automóvel porque guio dentro do combinado do tráfego urbano. Numa corrida de carros eu não sei dirigir, não conheço as regras, não fiz os acordos. Sou motorista em uma determinado contexto, quando o contexto muda, não sou nada!

E sou pai em um contexto, e filho no outro. Sou um homem de fé em um contexto, e um descrente em outro. Sou corajoso em meu trabalho, mas covarde em uma floresta, por exemplo! Posso me explicar em cada um destes domínio de modo racional, dizendo como funciono em cada um deles. Me movo de um contexto a outro a todo momento. Vou de casa para o trabalho, paro para jogar bola com meus amigos, converso com um deles que também é meu colega de trabalho sobre coisas da nossa profissão, e nunca me confundo, cada pessoa tem seu papel em minha vida de acordo com o contexto onde me relaciono com ela.

Todas estas minhas dimensões estão sobrepostas em mim, Isto gera uma certa confusão quando não estou atento e posso acabar dando uma de corajoso ao dirigir uma carro na cidade, ao invés de manter uma direção defensiva, que seria melhor para minha vida e a para a de todos. Vivo nestes contextos diferentes mas dependendo do momento que estou, me confundo.

Me perco às vêzes nestas dimensões pessoais justamente pelo meu estado emocional que varia de acordo com o que acontece comigo. Se briguei com meu filho saio prá rua dirigindo como um louco e ainda explico racionalmente que estou atrasado, com muita pressa, por exemplo. Quem estiver, na minha opinião, andando devagar na minha frente vai levar uma buzinada!

Estamos geralmente operando racionalmente, com bons argumentos, explicações e justificativas para quase tudo que fazemos, e nem nos damos conta de nossas emoções, e de como elas podem estar nos afetando naquele momento, embaralhando um pouco nossas dimensões internas.

Para compensar isto tudo nos agarramos à realidade objetiva na tentativa de fugir de nossas derivas emocionais, seguramos conceitos e ciências como verdade absolutas mas terminamos por nos confundir mais ainda, misturados que estamos em um mundo onde cada um vê o que vê, cada um com sua verdade única!

Quando discutimos assuntos que dependem nitidamente apenas de nossas opiniões próprias, como futebol, política e religião, perdemos nossas noções sobre uma realidade compartilhada e entramos no terreno das realidades relativas. Qualquer tentativa de argumentação racional não se sustenta nestes temas A afirmação de nossa verdade individual se revela como uma pedido de obediência! O outro que nos ouve desaparece porque não estamos com ele conversando um uma realidade que pensamos compartilhar.

Negado aquele com quem falamos também somos negados por ele. A pessoa que nos ouve se resente e passa a argumentar a partir de uma razão que só faz sentido a partir de sua própria emoção. Nos nega também!

A sensação de ambos é a de que uma ameaça existencial intolerável se apresenta neste momento, e de que é impossível conversar, correndo risco de acirrar ainda mais os ânimos.

Bem, antes que isto aconteça, vamos embora ou nos calamos porque, como todos sabemos, política, futebol e religião não se discute.

Como sair deste ciclo. Bem, qua tal você apreciar a fala de alguém entendendo que o que ele diz só pode ser aquilo que faz sentido com o viver histórico dele mesmo? Atentar para o fato de que existem tantas realidade percebidas quantos seres humanos na terra, multiplicadas pela inúmeras dimensões internas que todos nos possuímos.

Para experimentar isto, para viver este ato de pura amorosidade, é preciso dar atenção às nossas emoções, sentir como elas nos determinam e, através de nosso emocionar, aceitar um convite para uma conversação pautada pela aceitação mútua.

Percebendo que tudo que pensamos tem a ver com aquilo que sentimos, não com a realidade em si mesmo, podemos começar a perceber isto também nas pessoas e, sem afetação, conversar com naturalidade com elas sobre futebol, religião e política, numa boa!

Anúncios
  1. Leandro N Azevedo

    Acredito que há a oportunidade de contínua construção das “realidades” compartilhadas na linguagem e emoção; como quando a criança aponta para uma coisa e pergunta: “O que é isso?” e você responde: “um cachorro!”. Isso se dá nas coordenações recursivas de coordenações de comportamentos consensuados (linguagem) que geramos no viver e conviver em grupos sociais; dentro de um processo inundado pela emoção que permita o desejo de estar juntos na sensualidade, sexualidade e no prazer de estar com o outro (emoção: amor), nos espaços de conversações (linguagem + emoção) geradores de mundo.

    Num tempo diferente, quem sabe matríZtico, estar juntos significaria a “co-inspiração” na geração de um espaço de viver em harmonia com os outros (antroposfera) e com o meio (biosfera); e não no desejo de impor ao outro uma “verdade” única e acabada; do espaço emocional que dá origem à competição, à tolerância, a raiva, ao mando, ao prazer pelo poder, ao desejo da onipotência, da posse, do enriquecimento a partir do acúmulo, como se a natureza, e até a vida humana, existisse para ser possuída e dominada.

    Urge que reflitamos sobre o mundo pós-moderno que geramos a partir de nosso viver, a partir de nossas redes de conversações, a partir do domínio de condutas que vivemos por meio das emoções como conservações estacionárias de sentires internos que temos; e nos perguntarmos: desejo o viver que tenho? desejo desejar o viver que tenho?

    Responder

  2. Archimedes Guimarães de Castro

    Futebol, política, religião e a realidade, não se discute?
    Alguém sabe qual o livro sobre o tema lançado recentemente?
    Grato,
    Archimedes Guimarães de Castro

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: