Reflexivamente feliz

Originally uploaded by Lalgarra.

O macaco que é macaco não sabe que é macaco. O cachorro que é cachorro não sabe que é cachorro. A cobra que é cobra não sabe que é cobra. O homem que é homem sabe que é homem. O homem que não sabe que é homem pode ser qualquer coisa, inclusive um macaco, um cachorro ou uma cobra!

Assim começa a peça “A Alma Imoral” que assisti no Teatro Eva Hertz em atuação impecável (mas existe o pecado?) de Clarice Niskier a partir do livro homônimo de Nilton Bonder.

Bonder é um rabino progressista, líder da Congregação Judaica do Brasil com formação internacional e uma coleção de sucessos editoriais como “O Segredo judaico da solução de problemas”. A Alma Imoral é seu décimo primeiro livro e traz uma visão clara sobre a importância da transgressão como elemento de manutenção da vida com fartos exemplos da tradição judaica, da bíblia e de histórias e parábolas universais. Bonder identifica na alma, e não no corpo, essa qualidade transgressora que desafia os limites culturais, sociais e religiosos em momentos onde a manutenção da vida se faz imprescindível. Bonder escreve e Clarice nos fala sobre a importância da conservação da vida acima da conservação das regras e é justamente aí que eles se encontram, em minhas reflexões, com o que Humberto Maturana nos ensina.

Então entendendo o início do espetáculo temos os animais, macaco, cachorro e cobra, vivendo seu viver sem refletir sobre si mesmos, e temos o homem, um ser humano vivo mergulhado em sua cultura e linguagem, tendo a reflexão como algo que o distingue dos bichos. Então o cachorro fica parado na porta da cozinha e sabe que não pode entrar porque seu dono não permite e está triste como fica triste um cão, mas não reflete sobre si mesmo percebendo: “Estou triste”. O cão vive como vive e o homem vive seu viver a partir das distinções que faz sobre o que vive, sente e pensa. O homem em seu observar a si mesmo e ao que está ao seu redor é um observador e tudo, “tudo que é dito, é dito de um observador a outro que pode ser ele ou ela mesmo” (as aspas são de Maturana).

Mas então vamos lá. Falando em observação a peça A Alma Imoral me lançou em uma dimensão de reflexões intensas. Ao ouvir a primeira frase da peça entrei em emoção profunda, comecei a chorar e a sentir em meu corpo as dores da transformação, até um dor de barriga pintou! Tentei não ter medo e me entreguei àquele fluxo de emoções e à deriva de reflexões que Bonder propõe e Clarice apresenta. Fiquei ali sentado, experimentando tudo aquilo firme como um homem mas absolutamente sem virilidade alguma. Essa força seguiu durante todo o espetáculo com picos de emoção ainda maiores justamente nas passagens onde Bonder/Clarice comentavam trechos das escrituras onde a vida se apresentava como um valor acima das regras, do patriarcalismo e das convenções sociais. Meu corpo chegava a tremer!

Sei que reagi assim e que tudo isso me bateu desse jeito porque minha própria existência vem de um ato de transgressão. Fui concebido a partir de uma paixão proibida, um relacionamento extra-conjugal entre pessoas de classes sociais e nível cultural bem distintas. Sou filho natural de um pai mais velho, casado com uma família de oito filhos, de uma família tradicional e abastada numa cidade do interior de São Paulo, e de uma mãe jovem e bonita, criada sob a repressão de uma cultura familiar ítalo-espanhola, vivendo numa situação de grandes dificuldades financeiras mas com toda a beleza e brilho que a natureza e os cuidados de seus pais lhe garantiram. Meu pai e minha mãe se apaixonaram e viveram uma relação conturbada que gerou um filho único, centro de um conflito familiar que ecoa até hoje nas vidas de todos os envolvidos direta ou indiretamente nesta situação. Tudo isto aconteceu em Sorocaba, nos anos 60, e até hoje alguns dos meus irmãos trocam de calçada quando me vêem e todos disputamos judicialmente sobrenomes e bens familiares!

Nesse contexto, quando Bonder nos fala sobre os filhos das mulheres judias nascidos pelo estupro dos romanos, e de como a lei dos hebreus foi ajustada para acolher estes filhos como legítimos judeus, de certo modo entendo que ele fala um pouco de mim. Ou então quando ele interpreta a história de Superman como um kryptoniano adotado por uma família terráquea, criado como um garoto frágil mas que traz dentro de si todo o potencial de transformação de um mundo, de certa forma ele fala de como me sinto ao superar inúmeros obstáculos emocionais e sociais para me estabelecer como um legítimo homem em meu mundo.

Aqui me detenho neste ponto da obra de Bonder para falar sobre este mutante. Aquele que está preparado para a destruição iminente. Aquele que está pronto para, a qualquer momento, ver sua casa ser derrubada e partir garantindo a sobrevivência de sua espécie. O judeu errante, o nômade, aquele que caminha além das convenções e regras, rumo à conservação de seu viver. Aquele que cultiva a inteligência da plasticidade, da adaptação ao meio sem a perda de sua própria identidade. O pária, que vive seu viver em congruência com o meio em que vive, mantendo este meio e sua vida neste meio.

Aquele que observa isto entendendo a cada momento que as regras, as coordenações de condutas são fundamentais para o viver dos humanos entre os humanos, mas que estas regras devem ser pensadas a cada momento em função da manutenção da vida, e não mantidas apenas, como se fossem a própria sustentação da vida.

Assim sempre me identifiquei com algo na cultura judaica que não sabia o quê. Tenho grandes amigos judeus e me alinho a eles com grande naturalidade. Mesmo meu visual de cabelos encaracolados e barba me confunde com a turma do Torá em diversas situações, e de alguma forma tenho grande orgulho disso.

Com Bonder e sua visão da superação da norma em função da manutenção da vida é claro que minha emoção explodiu em lágrimas e êxtase! Ele reposicionou a transgressão como um valor, mas não um valor em si mesmo, feito um libelo de rebeldia caótica, um protesto pelo protesto, nada disso. Uma transgressão da alma, expressa em condutas que desafiam as tradições quando estas se tornam uma ameaça à continuidade de nossas vidas no bem-estar de nosso viver.

Desse modo sou mesmo um transgressor. Sempre fui.

Mesmo minhas práticas espirituais se alinharam à esta visão. Não escolhi o catolicismo, onde fui batizado, nem o protestantismo, o espiritismo ou o budismo para freqüentar, mesmo tendo conhecido todos. Escolhi o Santo Daime, a quinze anos atrás, quando esta doutrina ainda não era reconhecida pela sociedade como legítima, para desenvolver minha busca espiritual e minha cura interior.

Também minha vida acadêmica alinhada com a transgressão. Cursei Jornalismo nos anos 80 na PUC em São Paulo, montando meu curso de um modo tão inusitado, fazendo trabalhos e provas de de uma maneira tão própria que a faculdade nunca conseguiu entregar minha graduação, apesar de ter estado durante os quatro anos no curso freqüentando todas as matérias, participando intensamente de todas as atividades e sendo reconhecido como um dos alunos mais brilhantes daquela época.

Minha vida profissional também é completamente marcada pela diversidade. Tenho um curriculum incrivelmente variado que vai de ações inovadoras para o governo brasileiro a passagens como líder em ambientes corporativos de grande destaque, tudo isso costurado por uma carreira em televisão, em internet e em educação para adultos. Uma verdadeira salada de competências todas muito bem realizadas mas sem a coerência esperada pela status quo da lógica de mercado.

Na minha vida familiar entretanto, creio que por pura oposição ao modelo de transgressão onde fui concebido (talvez ainda um dos meus últimos medos!), mantenho uma constância e um equilíbrio que me fazem absolutamente feliz. Tenho uma esposa que amo a mais de quinze anos e quatro filhos que crio com todo a dedicação e amor que consigo expressar.

Tenho então revivido minha condição de pária, bastardo, marginal, vira-lata e mestiço, inúmeras vezes, em diversas situações e dimensões de minha vida. Sigo experimentando viver em grupos sem entretanto não pertencer exclusivamente a nenhum deles. Transito entre culturas como um poliglota, quase sem ter uma língua nativa, e o texto de Bonder me trouxe uma experiência de redenção nesta condição em que me encontro.

Porque o que sinto daqui onde estou é que faço parte sim de todos estes sistemas onde opero. Contribuo me coordenando com pessoas diferentes em contextos diferentes sempre da melhor maneira que posso.

Se isto tudo é verdade? Bem meus amigos, como diria Maturana, nossa explicação sobre nosso próprio passado é apenas isto, mais uma explicação. E a explicação nunca substitui a experiência.

O trabalho de Humberto Maturana e Ximena Dávila, através da Biologia Cultural, me trouxeram uma dimensão do outro, uma legitimidade em reconhecer que cada um de nós vive um viver válido a partir de onde está, uma percepção clara que de todos nós somos certos em nosso viver independentemente do conjunto de regras nossa sociedade aceita como válidas. O que existe então são condutas apropriadas ou não-apropriadas, aquilo que nos coordena ou não nos coordena com as pessoas ao nosso redor. Certo e errado não existem em si mesmos. A ética não é algo fora do ser humano, ela surge no operar de nossas relações. Quando entendemos a ética como algo único, externo a nós, que existe como um conjunto de normas que nos regula em uma única realidade, perdemos a noção do fundamento do viver que é a própria conservação da vida.

Quando aceitamos a realidade como única, desprezamos a riqueza da diversidade de realidades que cada um de nós traz, anulamos a presença individual humana e sacrificamos, filhos, amigos, inimigos, mestres, cristos, e quem mais for, no calvário das leis universais, tirânicas e desumanas.

O transgressor, o mendigo, o mutante, trazem a esperança que ainda podemos ter na espécie humana enquanto seres amorosos e cuidadores, que vivem num amar biológico, à deriva em coordenações de coordenações, conservando algo que nesse momento está profundamente ameaçado em nosso planeta, o viver humano de cada um.

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  1. Leandro N Azevedo

    Luíz, lindo seu texto! Especialmente como narra sua história de vida em congruência com as palavras e reflexões destacadas na peça “Alma Imoral”.

    E ainda acrescento: “O transgressor, o mendigo, o mutante, trazem a esperança que ainda podemos ter na espécie humana enquanto seres amorosos e cuidadores, que vivem num amar biológico, à deriva em coordenações de coordenações, conservando algo que nesse momento está profundamente ameaçado em nosso planeta, o viver humano de cada um.”; e a ameaça ao viver humano como seres vivos na biosfera que nos dá condição de existência.

    Na medida em que nos movemos em acoplamento estrutural com o meio que nos muda e o mudamos, congruente e conjuntamente; trazendo à mão, como seres humanos que somos, as distinções de tudo aquilo que surge na conservação do viver em que existimos como biologia-cultural que somos. O mundo não é em si, é o resultado do operar que temos como seres vivos na linguagem e na emoção; assim, damos “realidade” aquilo que distinguimos pela curiosidade e pela dor.

    Esse processo nos possibilita inclusive realizar as distinções de coisas, que especialmente nos geram os espaços de mal-estar, como: a posse, o acúmulo de riquezas, a escassez, as desigualdades, a defesa da “verdade” e da “objetividade”, a liderança, a imposição, a autoridade e a submissão, as emissões de CO2 e o aquecimento global, as poluição das nascentes… enfim, tudo aquilo que caracterize as propriedades de uma sociedade pós-moderna em que geramos com o viver biológico-cultural que temos.

    É especial termos consciência de que somos capazes de refletir sobre nosso operar e sobre às consequências que trazemos à mão a partir desse operar gerador de mundos.

    Enfim, poderemos nos perguntar: Desejamos viver o viver presente e as consequências da conservação da congruência desse viver na realização do presente, momento a momento, que nos traz a mão o mundo em que geramos e conservamos a partir do viver biológico-cultural que temos como pós-modernidade?

    E nos darmos conta do compromisso que temos com a virada da pós-modernidade para a pós-pós-modernidade no surgimento do olhar reflexivo do ser humano pertencente à linhagem homo sapiens-amans ethicus (vide “Habitar Humano”, Ximena Dávila e Humberto Maturana, 2008).

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