Waiting for the rain…

Originally uploaded by Anne*°.

Compartilho aqui com vocês uma história narrada ontem pelo Prof. Humberto Maturana em nosso curso de Biologia Cultural. Maturana era professor universitário por ocasião do golpe militar no Chile em 1973 e aqui transcrevo a história de seu encontro com Augusto Pinochet.

“Em 1984 recebi um convite branco com letras douradas, um convite para jantar com Augsuto Pinochet na casa da moneda.
Outros professores universitários receberam um convite semelhante.
Conversamos e todos decidiram que não poderíamos recusar!
Minha mãe me disse naquela ocasião:
– Filho, comporte-se lá lembrando que você tem filhos!
Então no dia e hora lá estavam todos, presentes ao jantar.
Todos em um grande salão, cerca de 85 pessoas em sua grande maioria universitários.
Então chega Pinochet acompanhado de um homem que sabia exatamente quem era cada um de nós.
O ditador foi apresentado e apertou a mão de um por um.
Já na mesa de jantar, todos juntos, Pinochet levanta seu copo e convida:
– Vamos brindar à nossa pátria.
E todos brindam.
Louças de primeira, comida deliciosa.
Então Pinochet toma o microfone mais um vez e diz:
– Fiquem tranquilos porque hoje não haverá discursos.
Como não havia espaço de falas, decidi fazer um brinde, aproveitando o espaço de brinde criado por Pinochet.
Então me levanto, levanto meu copo e digo:
– Eu também quero brindar pela pátria.
Silêncio sepulcral! As moscas que voavam caíam congeladas!
O vinho fica imóvel nas taças.
Então eu disse:
– Todos aqui, reunidos como estamos, indica que este é um momento de sucesso em qualquer governo.
Estamos hoje aqui como homens simples do chile que somos, incluindo nosso presidente, então brindo para que possamos contribuir para gerar a autonomia intelectual e a liberdade cultural do Chile!
Silêncio absoluto! Pinochet levanta sua taça brindando, toma um gole, põe a taça sobre a mesa e aplaude quatro vêzes.
Todos repetem seus gestos também aplaudem quatro vêzes!
Um colega me cochichou:
– Que lindo!
Um outro comentou:
– Vamos terminar em Putre (onde ficava um campo de concentração).
Terminamos de comer e fomos ao salão para tomar um aperitivo.
Então eu disse.
– Preciso ir!
– Isso depende do dono da casa, me comentou um colega.
Então vamos falar com Pinochet que ele está só:
– Estimado presidente lhe apresento Humberto Maturana, distinto biólogo.
Pinochet me olhou nos olhos e disse:
– Professor, digo-lhe que compartilho de seus desejos.
– Que como dizes, seja como faças, senhor.
Ele apenas me olhou sem alterar sua expressão.

Na hora de partir mais uma vez passei por ele e Pinochet disse simplemente:
– Tchau.
– Tchau.
Respondi com um aceno de mão.
Depois recebi telefonemas de colegas dizendo:
– Gracias, você nos devolveu nossa dignidade.
E outro:
– Você pode nos ter condenado a todos!
Mas nada de mau nos aconteceu, pelo menos não nos meses que se seguiram.
Dez anos após este episódio, fui preso e levado à interrogatório pela polícia de Pinochet, mas esta é outra história!

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  1. Mafeteco

    Não sei se ouvi isso, mas coloco aqui como uma colaboração: De que ele esteve todo o tempo durante o jantar buscando uma forma de se manifestar. Que Pinochet disse: hoje não haverá discursos nem reinvindicações, por isso ele propôs o brinde.
    E que na hora dos cumprimentos, ele sentiu que o cara falava com ele de igual pra igual, mas que chegou alguém fazendo um pedido (tipo se humilhando) e aí o Pinochet assumiu a postura de autoritário. Então surgiu o autoritário..

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