Banksy’s statement.

Upload feito originalmente por davidezartz

O que chamamos valores humanos, tais como honra, liberdade, justiça e verdade, são abstrações de nosso operar como seres amorosos. Considerando que os seres humanos necessitam de cuidados ao nascer, podemos dizer que nossa espécie surge em um convívio de cuidados cotidianos a partir de uma relação maternal que funda nosso espaço relacional básico.

Não existe um ser humano vivo que não tenha sido cuidado por algum outro. Este cuidado está em nós como uma predestinação biológica, onde para um adulto um outro ser vivo de sua espécie, um filhote, surge como tão válido em seu viver como ele mesmo.

Entretanto nossa estrutura social baseada na exigência e no controle, gera atos entre os adultos que não são percebidos pelo filhotes como atos de cuidado. Aos poucos nossos filhos desenvolvem critérios de distinção para identificar o que é um ato de cuidado e o que talvez não seja.

Crescemos e nos tornamos adultos conservando este critérios de distinção para poder operar em um mundo onde desejamos conservar o nosso viver enquanto seres humanos vivos. Nos adaptamos a uma estrutura social baseada no submetimento e nesta adaptação procriamos e recebemos nossos fihotes que nascem na confiança biológica de serem cuidados em um espaço relacional onde seu viver seria tão legítimo como o de qualquer um de de todos os outros.

Entretanto este espaço relacional não ocorre, nem na estrutura familiar, nem na escolar e muito menos na profissional. Toda a falta de sentido em nosso viver, toda dor existencial individual, toda violência humana em suas diversas expressões surgem na violação deste princípio humano do bom conviver na amorosidade de nossa constituição humana.

Podemos conscientemente re-construir estes espaços relacionais, nutrindo grupos humanos com as condições necessárias para que surja, de modo espontâneo, este modo de conviver na matriz humana de amorosidade e cuidado.

Entendo que é neste desejo que diversos líderes empresariais propõe ações consensuais entre seus colaboradores para a construção de uma lista de valores éticos e virtuosos que poderiam nortear as práticas e propósitos de sua comunidade.

Amor, liberdade, comprometimento, justiça, inovação e qualidade são palavras comumente encontradas nas placas que declaram missão, valores e visão de diversas empresas hoje em dia, principalmente em empresas globalmente instaladas, sintonizadas com as técnicas emergentes de administração humana voltada para resultados.

Entretanto a estrutura hierárquica destas empresas, a exigência do lucro como resultado último da comunidade e as práticas e processos industriais desenhados a partir da impessoalidade, geram territórios de exigência e controle que não contribuem para o estabelecimento de um sistema social humano autêntico e amoroso.

Neste contexto, o consenso do grupo para a produção de uma carta de valores e princípios, surge como uma lista de metas a serem perseguidas, condutas desejadas e ações esperadas de todos os integrantes da empresa.

Mesmo que encaremos estes valores como balizas e referências para todos os atos idealmente praticados dentro do âmbito profissional, temos também neste caso algo a ser conseguido por todos.

Ora, se este valores são fundamentos do espaço relacional humano legítimo, então a carta de valores deveria ser apenas uma descrição do que ocorre, e não uma lista de metas!

Em minha opinião, as atuais cartas de valores não passam de negociações entre lideranças e colaboradores, contemplando uma série de necessidades de controle e regulação dos espaços de convivência. Muitas vêzes também a carta de valores serve como arrazoado de práticas a serem reforçadas na perspectivas de construção de uma espécie de identidade corporativa ou personalidade grupal que deverá garantir um diferencial de mercado ou vantagem competitiva qualquer.

Além disso, quando os valores da empresa são declarados para todos da comunidade, passam a ocorrer uma série de avaliações informais nas observações das condutas uns dos outros. Quem está ou não está agindo de acordo com os valores a cada momento? Este passa a ser um critério de valoração das pessoas naquela comunidade, mesmo que informalmente.

O valores passam então a ser parâmetros de entendimento do que acontece com as pessoas e com a comunidade, que não são mais percebidas em sua espontaniedade, e sim a partir das condutas esperadas conforme os valores combinados.

Isto cria uma enorme zona de cegueira. O viver humano não pode ser capturado por uma grade pré-estabelecida de comportamentos, ele acontece de acordo com a adaptação de cada pessoa com o meio ao seu redor, a cada momento. Quando observamos este viver de modo avaliativo, as pessoas desaparecem enquanto seres humanos, restando apenas a imagem hierárquica de cada um. Isto nos torna cegos àqueles que nos cercam e isto só cria mais isolamento e dor.

Com estas palavras não pretendo invalidar as intenções, utilidade ou função destes acordos empresariais. A missão da empresa, seu propósito, seu modo de ser e operar na sociedade e entre si, tudo isso pode ser pactuado e acordado entre pessoas a qualquer momento, e deve cumprir uma função qualquer no viver de quem perceber este pacto e aceitá-lo como válido a cada momento de sua vida (mesmo que eu mesmo nunca tenha visto nada disso funcionar deste jeito em parte alguma).

O que gostaria de deixar claro para mim mesmo é que, de forma alguma, com uma carta de valores como esta, estaremos garantindo a construção de um espaço de convivência humana onde seja possível operar na amorosidade do cuidar enquanto fundamento de nosso viver.

Espaços de convivência legítimos não podem ser fundados em ato único de uma comunidade. Surgem apenas na coordenação de nosso convívio em tempos e espaços livres de exigência e controle.

No modelo atual de operação das empresas, consolidado a partir da era industrial, calcado na eficiência e relevância, todos o tempo e espaço disponíveis estão alocados. Mais do que isso, normalmente vemos as pessoas trabalhando ainda mais do que o contratado em horas adicionais e jornadas de trabalho estendidas. Até mesmo o espaço de trabalho se estendeu para além das fronteiras da empresa, ocupando o viver das pessoas conectadas em seus computadores e telefones celulares!

A construção de uma cultura ocorre em coordenações de coordenações humanas no cotidiano do conviver humano. A cada situação vivida individualmente e compartilhada em grupo, as micro-interações humanas, carregadas de emoções e percebidas no linguajear, permitem aos poucos que cada um de nós, a seu tempo e a seu modo, possamos ir nos ajustando uns aos outros e ao que entendemos ser o meio em que vivemos.

Estas micro-interações são extremamente complexas pois ocorrem em uma massa astronônima de informações sensoriais disparadas de um ser humano vivo ao outro em nossas redes de conversações diárias. Sons, odores, cores, posturas e olhares ocorrem instantaneamente nos intercâmbios humanos de conversação. O sistema nervoso de cada um de nós, mesmo sendo fechado em si vai, progressivamente, gatilhando mudanças em sua estrutura de acordo com os critérios de validação que temos sobre cada coisa por nós percebida.

Não sabemos o que o outro ouve enquanto nós falamos. Cada um ouve o que ouve a partir de seus próprios critérios cognitivos, e ainda cada um interpreta o que percebe a partir de seus domínios de conhecimento, no fluir da emoção que vive a cada momento. Então não há como prever e controlar de modo algum o que o outro ser humano ouve, mas ainda assim temos responsabilidade sobre tudo que dizemos, principalmente de estivermos atentos reflexivamente sobre como fazemos o que fazemos em nosso viver cotidiano.

Então nosso conviver em redes de conversações pode, de modo incremental, construir culturas onde os valores virtuosos como ética, liberdade, amor e justiça surjam espontaneamente, como aspectos básicos de nosso viver, um viver fundado no bem-estar da confiança e amorosidade, fatores biológicos-culturais de constituição de nossa espécie, uma espécie de cuidadores sociais que, em seu linguajear diário, podem conservar seu viver em congruência com o planeta e seus habitantes, conservando assim seu viver e consequentemente, a vida humana na Terra.

Em uma próxima postagem pretendemos detalhar um pouco mais uma dinâmica operacional que possa contribuir a construção consciente de um espaço relacional humano onde os valores humanos surjam espontâneamente, emergindo como fundamento da amorosidade humana.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: