Drosting Hands

Upload feito originalmente por Josh Sommers

Emprestando um conceito da cibernética gostaria de convidar a todos a uma reflexão sobre nossos papéis como netweavers nas redes que incentivamos.

Na década de 80 houve um desenvolvimento no campo da Cibernética que resultou na passagem da Cibernética de Primeira Ordem ou dos Sistemas Observados para a Cibernética de Segunda Ordem ou dos Sistemas Observantes. Melhor explicando: O sistema deixa de ser observado de fora pelo observador que passa para uma postura de co-participação na observação do sistema em pleno funcionamento. Assim novas tendências foram incluídas à prática sistêmica pois era preciso quebrar ou evoluir dos ideais lineares para os circulares.

Bem nesta época diversos profissionais atuavam como “animadores de redes”, principalmente nos ambientes de educação à distância (EAD) visando sobretudo reduzir a taxa de desistência dos cursos online através de interações e provocações motivacionais. Projetos de gestão do conhecimento contratavam monitores, tutores e animadores de rede para ambientes onde deveriam ocorrer o compartilhamento de conhecimento, produção e troca de informações entre os usuários (assim eram chamados) destes ambientes virtuais.

Estes animadores de rede assumiam uma posição de poder neutro, mediando debates, cobrando presença, mensurando resultados e organizando as interações entre os membros do ambiente virtual referido. Obviamente estas estratégias resultavam em alterações do comportamento das pessoas conectadas mas não apresentavam resultados satisfatórios, pelo contrário, a maioria se sentia incomodada e invadida quando tocada por este tipo de recurso.

A principal diferença entre este “animadores de rede” e os netweavers, a partir da evolução da Cibernética de Primeira Ordem para a Cibernética de Segunda Ordem, diz respeito à compreensão do lugar que ocupamos na rede, saido de uma condição de detentores do poder, como mediadores, para uma posição mais igualitária de co-responsabilidade e co-inspiração junto ao integrantes da rede.

Para isso é preciso, antes de mais nada, que cada um de nós se assuma como um ser humano que traz em si a dinâmica de uma história individual repleta de critérios próprios. Cada um de nós, netweavers, trazemos introjetados em nossos valores, uma família e cultura que usamos como parâmetros para nos orientarmos dentro da realidade que distinguimos como válida e na qual acreditamos estarmos inseridos.

Aceitando então que não somos neutros nem imparciais, e nos observando enquanto alguém que vê e ouve tudo de um lugar íntimo pessoal intransferível, não estaremos mais nos mitificado como experts, especialistas em fazer redes ou orientá-las de algum modo, (como se isso fosse possível).

Poderemos então assumir conscientemente a característica de facilitadores do diálogo, utilizando cada um de nós, de seu mundo interno na co-construção de uma realidade co-ordenada entre os membros da rede.

O conceito de auto-reflexividade passa a ocupar uma posição central, significando “um diálogo interno do indivíduo consigo mesmo e a tomada de consciência dos próprios preconceitos e teorias através das quais se vê e compreende o outro e o ambiente circundante” (Boscolo & Bertrando, 1996). Esta é uma importante mudança epistemológica, pois amplia e aprofunda os efeitos da abertura da “caixa preta”, favorecendo a passagem de uma visão reducionista, baseada na descoberta de padrões comportamentais, para uma visão de maior complexidade e abertura, inclusive em direção ao mundo interno do indivíduo, suas histórias, seus significados e suas emoções.

Essa mudança epistemológica permite uma nova compreensão sobre a circularidade, que passa de uma “categoria de observação” para uma “postura de interação”, demandando do netweaver uma sensibilidade em perceber os comportamentos verbais e não-verbais dos membros da rede, assim como as nuanças de suas próprias respostas nesse contexto interacional. É importante que o netweaver esteja atento a todos os recursos disponíveis. Quanto mais astuta ou perspicaz for a observação, mais as perguntas poderão estar refinadas para perceber as respostas da rede, e mais próximos e implicados estaremos do grupo.

É nesse contexto que todos se tornam responsáveis, numa atividade de construção conjunta, pela emergência de hipóteses, questionamentos e novos significados, num encontro que agrupa não só as crenças e relações entre os membros, mas os pressupostos e construções advindos de nossa própria experiência e dos valores sustentados em nossas interações com outros relacionamentos familiares, sociais e culturais. Esta arquitetura lingüística permite a construção de uma ética característica deste um encontro quase mágico entre o netweaver e rede. Ou melhor dizendo, um encontro humano, com tudo de simples e extraordinário que isto evoca em nosso cotidiano neste planeta.

* Este artigo foi originariamente escrito por Luiz Algarra para a Escola de Redes na inspiração do Simpósio em Campos do Jordão entra as conversações dos papagaios (Mafeteco, Alblum, Richieri, Lígia e Munduruca) sobre a terapia familiar sistêmica da Escola de Milão.

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  1. Clara

    Algarra, estava eu navegando por aí em busca de informações sobre netweaving e eis que te encontro!

    Achei bem interessante esta diferença que vc pontua: “A principal diferença entre este “animadores de rede” e os netweavers, a partir da evolução da Cibernética de Primeira Ordem para a Cibernética de Segunda Ordem, diz respeito à compreensão do lugar que ocupamos na rede, saido de uma condição de detentores do poder, como mediadores, para uma posição mais igualitária de co-responsabilidade e co-inspiração junto ao integrantes da rede.”

    Obrigada!

    Abraços

    Responder

  2. Valmir Duarte Costa

    Em minha percepção o netweavers é aquele que marca a sua presença em uma rede com a frase : Em que posso ajudar ?

    Valmir Duarte Costa
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    Responder

    1. lalgarra

      Sem querer complicar posso dizer que o netweaver é alguém que está além do desejo de ajudar ou ser ajudado. Ele não tem intenção, tem interação. Ele aceita qualquer expressão de alguém da rede e interage com e a partir dela. Veja, querer ajudar pressupõe que alguém precisa ou deseja ajuda, certo? Pois bem, o netweaver não presume nada, ele apenas fala o que fala numa interação a partir do desejo de interagir, da vontade de estar junto com a o outro. Estar junto com o outro realiza uma dinâmica humana fundante da nossa espécie. A milhões de anos estamos juntos. Sem expectativas, sem exigências. Estas instância relacionais surgiram em nossa civilização a menos de 12 mil anos, certo?

      Responder

      1. Valmir Duarte Costa

        Hum ,,,

        Quando expresso “querer ajudar” não pressuponho que o interlocutor precisa de ajuda, é simplesmente uma forma de iniciar a interação com uma postura de” dar” ao invés de “receber” . A dinãmica histórica fundante de nossa especie está fortemente embasada na comunicação, assim a disposição de interagir deve ser comunicada e me diga qual a melhor forma do que de se colocar no lugar no outro ?

      2. lalgarra

        Bem, de qualquer modo, “dar” já pressupõem um espaço de relação definido por que deseja “dar”. Se alguém não quiser “receber” neste caso a interação não ocorre.
        Quanto a se colocar no lugar do outro, bem, pessoalmente não entendo que a empatia seja possível já que cada ser humano sente o que sente e vive o que vive a partir de uma corporalidade única, instranferível e inacessível. O sistema nervoso humano é fechado, então en não posso saber como você está sentindo o que você sente, logo não posso me colocar no seu lugar. Posso fazer uma abstração, dedução, inferência e uma série de operações lógicas para tentar ver uma situação pelo ponto de vista do outro, mas serão apenas ilações.

      3. Valmir Duarte Costa

        Excelente !!!

        A interação já ocorreu pois levou o interlocutor a pensar na oferta com todas as suas variávies . PAra o netweaver o ficar junto foi atingido !

        Em meu entender sua percepção de sentimento é fisiológica, o fato é que é possível se colocar no lugar do outro mesmo que sejam apenas ilações, pois tal disposição já mostra ao interlocutor a sua intenção ou atenção .

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