TEDx Amazonia

O relato da experiência não substitui a experiência. Cada um vê o que vê a partir de suas próprias coerências operacionais em um fluxo de configurações íntimas. Um pouco do que vi e vivi no TEDxAmazonia registrei aqui neste post em um texto dito de mim para mim mesmo (mas você também pode ler).

O TEDx Amazonia foi uma experiência marcante. Uma imersão no contexto amazônico que trouxe para centenas de participantes a oportunidade de viver experiencialmente um contato direto com a floresta, sua gente e suas questões domésticas que, a médio prazo, terão consequencias planetárias.

Participei como palestrante do TEDx São Paulo e foi um evento refundante em minha trajetória atual, adorei as palestras em sampa mas, na Amazônia havia desta vez uma potência incomparável. Talvez pela floresta, pelo tema, pela naipe dos convidados, pelo desafio da produção e pela sensibilidade e maturidade dos organizadores.

Para mim uma emoção se abriu logo antes da abertura oficial do encontro quando entrei para acompanhar os últimos preparativos e me deparei com Antônio Nóbrega passando seu número de dança no palco.

TEDx Amazonia

Os números musicais foram espetaculares neste TEDxAm entrelaçando os blocos temáticos com danças, uma orquestra barroca e até mesmo uma entrada de música eletrônica. André Abujamra nos levou em um passeio Duvião através das nuvens da sua delicada percepção do chegar/partir. A bailarina peruana Nelida Silva trouxe os andes com suas cores e gestos ancenstrais.

TEDx Amazonia

O monge budista Lama Padma Samten entrou logo depois do Nóbrega e pediu um minuto de profundo silêncio que nos jogou na contremplação de nosso entusiasmo e energia mobilizados para aquele TEDxAm, e neste fluxo trouxe uma série de ensinamentos universais do budismo tradicional.

A carga de programação foi muito intensa. Cinquenta palestrantes com apresentações entre cinco e vinte minutos, das nove da manhã às oito da noite, com breves pausas de café e almoço. Ainda sim sobrou tempo para encontros, conexões e contato entre amigos, novos amigos e parceiros de toda a parte do Brasil e do mundo. E ainda à noite a turma se jogava numa baladinha básica no lounge da OI à beira da piscina com direito à coquetel e piscina.

Todo esse bem estar garantiu o ambiente de diversão e acolhimento tão necessário para que os quinhentos participantes pudessem desfrutar de uma experiência profundamente humanizadora, uma espaço onde pudemos compartilhar alimentos, cuidado, diversão e reflexão de modo irrestrito, um pouco como deveria ser nosso cotidiano, para muito além do atrapalho civilizatório que nos metemos e que sufoca os indivíduos neste planeta.

Durante algumas passagens não havia como respirar, tamanho impacto do contraste das apresentações. Uma perteira profissional (Suely Carvalho) apresentou com imagens a força da vida e a inutilidade estatística do parto cesareana, e logo depois uma cineasta ativista (Diana Whitten) trouxe as imagens de uma jovem espanhola ultrapassando os limites legais de seus país para exercer seu direito de fazer um aborto em alto-mar.

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Alguns falaram sobre o cuidado, a convivência e o aprendizado, e de como tudo isto tece nosso jeito humano de sermos humanos. Bernardo Toro, educador colombiano, trouxe sua pedagogia do cuidado com uma clareza estarrecedora. Edgard Gouveia Jr. apresentou o projeto Oásis onde com nenhum dinheiro, rapidamente e de modo divertido, organiza-se uma comunidade inteira para enfrentar os impactos de um inundação ou a miséria crônicas das periferias urbanas.

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José Roberto Fonseca apresentou o antes e depois de uma comunidade na caatinga que saiu do abandono social na seca do agreste, para uma localidade organizada, abastecida e produtora de diversos tipos de pimenta apreciadas por brasileiros e estrangeiros.

Zoe Melo, uma modelo internacional que descobriu sua vida muito além da futilidade da beleza comercial e que agora cria pontes internacionais entre jovens designers e produtores de orgânicos, e as galerias de arte e atitude de Nova York, Tóquio e Amsterdam.

TEDx Amazonia

Um jovem, João Felipe Scarpellini, que aos treze anos sonhou em mudar o mundo e consegui, dez anos depois, se destacar como uma liderança participativa em entidades sociais e empreendedoras em diversas localidades do mundo, ensinando e aprendendo a mobilização de jovens em projetos como o dele.

Mila Motomura desenhou todo o encontro em uma síntese gráfica que condensou as melhores idéias, cenas e insights que rolaram no palco.

Zach Lieberman apresentou um sistema desenvolvido em software livre que permite que tetraplégicos comandem computadores apenas com o direcionamento do olhar. Fantásticamente útil e barato!

Thiago Vinícius, (jovem sangue bom do Coperifa!) trouxe a história de sua comunidade no Jardim Maria Sampaio em São Paulo, com fotos dos fundadores e memória da organização comunitária que nos dias de hoje faz dele um banqueiro social, pilotando um projeto de moeda própria em um bairro que reinventa as relações econômicas a partir de um novo modelo econômico.

Outro Thiago, de Mello, poeta da resistência pela liberdade na América Latina, parceiro de Pablo Neruda em andanças e traduções, nos brindou com poemas universalmente citados e um quase inédito, que trouxe a floresta agonizante em versos de amor e inspiração.

TEDx Amazonia

Alexandre Sequeira, fotógrafo de rara sensibilidade, apresentou uma série de fotos de moradores de um vilarejo paraense com quem conviveu até desenvolver um espaço de confiança que lhe permitisse entrar na vida e na casa destas pessoas, retratando em tamanho natural a silueta dos habitantes impressa em cortinas coloridas de suas próprias casas. Lindo!

Para mim o encontro teve uma dimensão adicional pois vinha acompanhando algumas reuniões e processos de construção do TEDxAm aqui em São Paulo. Meus amigos Hélder Araújo, Marcus Colacino, Bia Sano, Bruno Fernandes e Lia Ascava, entre outros, estiveram mergulhados na produção deste TEDxAm durabte os últimos noventa dias, enfrentando todos os desafios externos e internos para realização de um encontro como este.

TEDx Amazonia

Para quem não sabe, conceber um encontro de quinhentas pessoas durante um fim-de-semana em um hotel flutuante no Rio Negro com todo cuidado e conforto, sem cobrar uma fortuna de cada pessoa por isto é um sonho maravilhoso de se ter, mas uma tarefa quase impossível de ser realizada.

Um pouco antes do final do evento tivemos a oportunidade de agradecer às 250 pessoas que trabalharam para que o TEDxAm pudesse acontecer. Aplaudimos as empresas que corajosamente aceitaram patrocinar um evento ainda novo, com altos custos e retorno de marca sutil e inovador já que não tínhamos por lá e nem no material de divulgação nenhum tipo de super-exposição das marcas OI, Santander e Natura.

A seca este ano na amazônia foi muito além do esperado. Os caminhos de água que são as rodovias amazônicas estavam quase secos, difíceis de navegar. Os barcos davam voltas enormes desviando de bancos de areia e alguns chegaram a encalhar com participantes dentro. O Jungle Palace, verdadeiro paraíso flutuante no Rio Negro, estava quase apoiado no fundo do leito de um braço do rio, quinze metros abaixo do seu nível normal de operação!

TEDx Amazônia

Com tudo isso os custos de produção triplicaram nos últimos dias. A logística se tornou um quebra-cabeça baseado no esforço, criatividade e improviso de muitos. O TEDxAm queimou suas reservas previstas e os organizadores acharam por bem abrir espaço para que a comunidade pudesse contribuir com doações espontâneas em uma conta bancária preparada para este fim.

TEDx Amazonia

As marcas do TEDxAmazônia para mim foram diversidade e abundância. Visões conflitantes para a construção de um mundo melhor foram apresentadas lado a lado, iniciativas sociais, culturais e inovadoras desfilaram pelo palco ininteruptamente. As apresentações e as conversações nos intervalos dispararam reflexões e provocaram profundamente todos os presentes. Foi uma chacoalhada geral, uma bomba de positividade que me fez olhar para meu espaço de cuidado para comigo mesmo, para com aqueles que eu amo e para aqueles outros deconhecidos que habitam, assim como eu, um lugar neste pequeno e imenso planeta.

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  1. Alexandre Sequeira

    Caro Luiz, certamente foi uma experiência marcante para todos que dela participaram. Obrigado por seu belo relato que me transportou de volta àqueles dias no Rio Negro.

    Responder

  2. Leinad Carbogim

    Foi uma experiência impressionante, mergulhei e ainda estou submersa nas reflexões dos temas, dos contatos intensos com tantas pessoas interessantes. Aprendi com todos e com cada um que ali estavam, palestrantes ou não. Parece que uma corrente luminosa de solidariedade universal se amplia depois do TEDx Amazonia e a gwente sai como diz o poeta Thiago de Melo, não com um caminho novo, mas com um novo jeito de caminhar…
    Acredito que muitos laços serão dados, muitos nós foram e serão amarrados e foi tecida uma nova teia que deu sentido ao TEDx … e isso dá sentido a vida … ” e para que a morte não me encontre um dia, solitária sem ter feito o que queria” , como cantava Mercedes Sosa.

    Responder

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