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Toda ação futura para solução dos problemas atuais, surge na fala livre e plena de possibilidades das pessoas que vivem hoje estes problemas.

Como viver, crescer e se conservar em empresas que não mudam? Nas empresas, mais do que soluções de longo prazo, é preciso liberar a fala e a mente das pessoas para que elas construam agora mesmo alternativas possíveis de ação, para que liberem seu potencial criativo se livrando da angústia e frustração cotidianas.

Na complexidade que vivem as pessoas acopladas a estruturas como empresas e organizações, não é possível resolver os problemas que as afligem. Sempre os fluxos de decisão e o contexto geral estão muito além do alcance de qualquer membro da equipe. Mesmo a diretoria, que tem prerrogativas de decisão mais amplas, segue de mãos amarradas pelas limitações impostas por quem os nomeou, seja um conselho ou um grupo de acionistas. A lógica do capital, as estruturas hierarquizantes e as culturas empresariais vigentes deixam muito pouco espaço para a expressão e decisão humanas.

O ciclo de mudanças das empresas é tão lento que, vivendo dentro delas, nem é possível percebê-lo. Se passam dez, quinze, vinte e cinco anos para que alguma mudança ocorra, e daí já temos uma geração de funcionários praticamente se aposentando! Desalentador? Nem tanto, depende de como abordamos este cenário e de que maneira tratamos o nosso cotidiano dentro de estruturas como estas. Renunciar ao nossos ímpetos de viver, construir, transformar e crescer nunca é uma boa ideia pois podemos nos entristecer, deprimir, adoecer e até morrer prematuramente quando tentamos viver de um modo que sufoca a vida que há em nós. Mas talvez haja uma saída por uma rota de fuga nova e desconhecida.

As pessoas reagem ao mundo não como ele é objetivamente, mas ao mundo conforme ele é percebido por cada um que o observa. Então não há objetividade, mas apenas o entrecruzamento de uma infinidade de pontos de vista e opiniões, sustentados por nossas falas, linguagem e narrativas. É impossível nos referirmos a uma situação da qual participamos sem que nossas descrições sejam influenciadas por nossas próprias referências pessoais. Então vivemos limitando nossa compreensão do que nos cerca ao nosso repertório de experiências, frases e significados.

Para perceber uma saída é importante notar que, por toda a parte onde andamos dentro das empresas, o que mais percebemos é uma restrição geral no linguajear das pessoas. Participando das reuniões, encontros, negociações até almoços de negócios tudo que ouvimos é sempre o mesmo blablá blá de sempre. O jargão institucional é uma espécie de língua oficial, idioma obrigatório que nivela a linguagem e restringe o repertório de possibilidades. Os indivíduos em seu viver ordinário e mundano, enroscados no que consideram ser seus problemas, conversam, falam, pensam, repetem, conversam de novo e,por mais que deem voltas, não encontram novas explicações para tudo o que lhes ocorre. Então daí começa o sofrimento, quando nos identificamos com uma explicação limitada sobre o nosso próprio sofrer. Frases como: “As coisas são assim mesmo. Ninguém conseguem mudar isso. Foi sempre assim desse jeito. Não adianta tentar mudar nada disso.” São como tampas mal encaixadas de uma panela de pressão superaquecida, não resolvem mas disfarçam os limites de entendimento instalados em cada indivíduo.

Então neste ponto temos uma possibilidade de ação interessante. Já que não podemos mudar o problema, pelo menos não imediatamente, então por que não tentamos transformar os impasses em que nos encontramos quando refletimos sobre o problema? Novas perspectivas e pontos de vista, diferentes daqueles que conservamos, sempre nos colocam de novo em movimento, nos libertando do círculo vicioso de nossas próprias, mesmas e velhas opiniões. Mas para termos a chance de construir novas abordagens de nossos problemas, precisamos de contato humano com outras pessoas que também vivem e conhecem estes problemas, ou melhor gente que também vive presa em seus próprios círculos de opinião mas que tem, pela variedade humana, uma visão sempre um pouco diferente da nossa.
Então criar espaços para a conversação, onde se busca fazer emergir uma visão de mundo compartilhada pela diversidade de opiniões de um grupo, ajuda bastante a co-construir realidades alternativas, novas conotações, com as quais o sistema humano desenvolve novas perspectivas que vão além do comportamento automático.

Não se trata de solucionar problemas, mas de solucionar impasses na resolução de problemas, através da mudança de perspectiva que permita um melhor agenciamento do próprio sistema para tomada de decisões e mobilização de seu potencial auto-organizativo. O trabalho do facilitador neste caso fica sendo facilitar o diálogo entre as diferente vozes do grupo, garantindo a operação de diálogo que inclui e aceita a ambiguidade, gerindo um contexto que suporte mal-entendidos e contradições, diferenças que, quando compartilhadas, permitem gerar descrições mais abrangentes e sistemicamente menos antagônicas do problema compartilhado. A facilitação de diálogos deve promover um canal de expressão livre e reconhecido como válido enquanto experiência de conversação por seus participantes, de modo a permitir um melhor agenciamento do próprio sistema para tomada de decisões.

Para isso creio que o melhor meio é gerar intervenções sutis e pontuais, sempre através de perguntas conversacionais, reflexivas e circulares. Perguntas que procurem explorar a influência do problema na vida do grupo e a influência do grupo na construção do problema. Perguntas conversacionais, são aquelas que abem espaço para novas perguntas e criam oportunidades para que novos significados emerjam. Através de mudança das perspectivas o grupo encontra em sua fala novas possibilidades de agenciamento do sistema, para tomada de decisões e mobilização de seu próprio potencial auto-organizativo.

A conversação orientada desse modo introduz complexidade nas histórias, sugere ações, que não necessariamente serão encaminhadas, mas que dão lugar ao surgimento inédito de alternativas possíveis de ação. Com isso as pessoas podem se reconectar em seus fluxos de vida, experimentar um dia diferente do outro, ir para além dos automatismos comportamentais e viver como seres humanos, sem todo aquele stress e angústia que vem acompanhando os trabalhadores das corporações nas últimas décadas.

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  1. Nei Grando

    Luiz, parabéns pelo sue trabalho, por seu rico Blog e por este artigo. O artigo me lembra muito as idéias de Peter Senge quando fala de organizações que aprendem, pensamento sistêmico, modelos mentais, visão compartilhada, aprendizado em equipe, etc.

    Outro dia na SBGC tive a oportunidade de ver na prática o seu trabalho usando o Aquário, onde pessoas partilhavam e discutiam livremente suas idéias, com seriedade e com respeito aos demais participantes. Gostei muito!

    A mudança tecnológica tem trazido mudanças na economia, na sociedade, na política e tem exigido cada vez mais que as empresas se utilizem de gestão do conhecimento, inovação, redes sociais e outras práticas para poderem mudar, valorizando principalmente o capital humano e tornando-se assim mais ágeis e mais competitivas. É preciso mudar e mudar já, de prefência para melhor e de forma sustentável.

    Um abraço, @neigrando

    Resposta

  2. Pingback: A Bordo da Comunicação » Blog Archive Curso de Redes Sociais e Inovação Digital #InovadoresESPM

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