Artigo na ResultsON #23
Carta de uma geração à outra

Por Luiz Algarra

Afinal quem é o responsável por esta Geração Y? Como foi que tudo isso começou?

Nossas escolas são as mesmas, a programação de TV quase não mudou, o governo segue vivendo os mesmos dilemas, a igreja defende os mesmo valores, as forças armadas ainda marcham igual, então o que houve para que uma pequena multidão de jovens surgisse com um comportamento tão distinto do nosso?

Folgados, distraídos e insubordinados? Sempre fazendo tudo ao mesmo tempo, impacientes, preocupados apenas consigo mesmo mas interessados em construir um mundo melhor? São assim mesmo estes ipsilons?

De fato não sabemos como lidar com eles. Fazemos eventos, editamos livros, tabulamos pesquisas, contratamos e demitimos uma porção na tentativa de entendê-los um pouco, mas não estamos conseguindo.

As empresas que construímos parecem que não são boas o bastante. As escolas que mantemos ficaram repentinamente ultrapassadas. A política está virando uma bagunça com gente nas ruas e na internet pedindo liberdade a toda hora. Nem bem fabricamos um modelo de computador, e já querem de outro jeito. Mais leve, mais fino, mais rápido e sem teclado, nem mouse! Onde estávamos quando nossos filhos se transformaram em uma espécie de gente diferente de nós?

Bem, creio que todos sabemos a resposta: estávamos muito ocupados, envolvidos na luta contra o desemprego e enredados na ameaça do não-consumo, preocupados com nossos seguros de saúde e aposentadoria, trabalhando doze horas por dia, e também aos sábados.

Aqueles garotos de óculos, meninas de tênis e crianças que não saíam do videogame agora cresceram e querem continuar brincando, jogando alguma coisa que os mantenha não apenas vivos, mas conectados e intensamente concentrados em algo.

Então está certo, parabéns! Vocês conseguiram. Estão disputando nossos empregos, nos colocaram para votar leis que atendem suas liberdade e estamos modificando nossos negócios para que você garotos sejam nossos clientes. Mas, atenção!

Deixo apenas um conselho meus jovens amigos, não se afastem de seus filhos, nunca eles e jamais abandonem a oportunidade de construírem juntos um bem-estar para todos vocês.

Se vocês falharem nisso, como nós falhamos, se preparem pois uma nova geração virá em Eles também terão uma etiqueta, rótulo ou apelido, e talvez venham para tomar o mundo de suas mãos, mesmo que ainda não saibam direito o que fazer com ele.

Por isso estejam preparados desde já. Fiquem perto de seus bebês e nunca se preocupem com o futuro de seus filhos, vivam com eles intensamente no presente e deixem que tudo que está por vir seja muito bem cuidado por eles, com vocês fazendo parte de tudo isso, saibam.

Se vocês conservarem por eles o afeto, o respeito mútuo e uma real curiosidade por tudo que eles trazem, vocês terão conseguido algo que minha geração não conseguiu: acabar com o abismo que separa as gerações. Este é o X da questão.

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  1. Denise Vilardo

    Oi, Luiz, parabéns pela reflexão. Me fez lembrar de um trecho de um texto do Rubem Alves, que diz assim:

    “Era uma sessão de terapia. “Não tenho tempo para educar a minha filha.”, ela disse. Um psicanalista ortodoxo tomaria essa deixa como um caminho para a exploração do inconsciente da cliente. Ali estava um fio solto no tecido da ansiedade materna. Era só puxar o fio… Culpa. Ansiedade e culpa nos levariam para os sinistros subterrâneos da alma. Mas eu nunca fui ortodoxo. Sempre caminhei ao contrário na religião, na psicanálise, na universidade, na política, o que me tem valido não poucas complicações. O fato é que tenho um lado bruto, igual aquele do Analista de Bagé. Não puxei o fio solto dela. Ofereci-lhe o meu próprio fio. “Eu nunca eduquei os meus filhos…”, eu disse. Ela fez uma pausa, perplexa. Deve ter pensado: “Mas que psicanalista é esse que não educa os seus filhos?”. “Nunca educou os seus filhos?”, perguntou. Respondi: “Não, nunca. Eu só vivi com eles”.

    Essa memória antiga saiu da sua sombra quando uma jornalista, que preparava um artigo dirigido aos pais, me perguntou: “Que conselho o senhor daria aos pais?”. Respondi: “Nenhum. Não dou conselhos. Apenas diria: a infância é muito curta. Muito mais cedo do que se imagina, os filhos crescerão e baterão as asas. Já não nos darão ouvidos. Já não serão nossos. No curto tempo da infância há apenas uma coisa a ser feita: viver com eles, viver gostoso com eles. Sem currículo. A vida é o currículo. Vivendo juntos, pais e filhos aprendem. A coisa mais importante a ser aprendida nada tem a ver com informações. Conheço pessoas bem informadas que são idiotas perfeitos. O que se ensina é o espaço manso e curioso que é criado pela relação lúdica entre pais e filhos.” Ensina-se um mundo! Vi, numa manhã de sábado, num parquinho, uma cena triste: um pai levara o filho para brincar. Com a mão esquerda empurrava o balanço. Com a mão direita segurava o jornal que estava lendo… Em poucos anos, sua mão esquerda estará vazia. Em compensação, ele terá duas mãos para segurar o jornal.”

    Um grande abraço!

    Denise Vilardo

    Responder

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