Muitas interações e pouco relacionamento. Em uma cultura orientada ao individualismo todos querem interagir sobre os assuntos que acham interessantes, e quase ninguém tem tempo ou ouvidos para escutar o que se passa com a pessoa do outro lado da rede.

Focalizando melhor a questão pergunto: existe mais alguém em seu mundo além de você mesmo? Se houver alguém em sua vida que seja tão importante para você como você mesmo, então não vives em um planeta solitário.

Quantas pessoas ao seu redor influenciam diretamente sua vida a ponto de você promover mudanças em seus hábitos e rotinas para seguir estando ao lado delas, ou para que elas vivam em um bem-estar? Se para você existem alguns assim, pode ter certeza que estes são os únicos outros habitantes de seu mundo.

Cada um de nós vive um conjunto de opiniões e preferências que nos define como pessoa, e aí estão as fronteiras invisíveis do planeta pessoal de cada um.

Vivemos nestes mundinhos particulares e geralmente deixamos passar pela alfândega apenas pessoas que nos ofereçam alguma afinidade, vantagem ou benefício.

Vivemos constantemente adaptados em um meio ambiente social, e na grande maioria dos casos as pessoas são meras perturbações em nossos planos de sobrevivência e controle.

Toleramos muitas pessoas em nosso trabalho, família, igreja e condomínio apenas para não termos problemas imediatos mas, de modo geral, a grande maioria dos seres humanos que conhecemos são meros espectros, personagens secundários, fantasmas que perambulam em nosso cotidiano e nossas lembranças. 

Aprendemos a respeitar os outros como cidadãos e indivíduos (na melhor das hipóteses), mas não os reconhecemos como pessoas que possam fazer alguma grande diferença em nossas vidas, estejam elas tristes ou alegres.

Aqueles que nem conhecemos, estes então praticamente não existem para nós! Sequer estão vivos. Assistimos todos os dias notícias sobre centenas de mortos por fome, guerra, catástrofe ou descaso de algum governo e tratamos isto como sendo mais um destes absurdos absolutamente aceitáveis.

Mas de algum tempo para cá estamos vendo chegar uma nova onda digital trazendo pelas redes socias uma multidão de novos desconhecidos que passamos a aceitar como amigos após um simples clique.

As redes sociais ampliam nossas possibilidades de relacionamemto com pessoas das mais diversas origens, entretanto seguimos nos limitando a conexões somente com gente que já faz parte do nosso mundo, seja por afinidade ou similaridade.

Desconfiamos dos desconhecidos enquanto não sabemos ao certo quem são e o que querem, e desconfiamos dos conhecidos por sabermos exatamente quem são e o que querem!

Todo o atrito, dificuldade e desafio que as pessoas nos trazem podem ser facilmente excluídos em nossas preferências de rede.

A desconfiança que intimamente mantemos uns dos outros, nos leva a ter um cuidado constante com as informações que chegam até nós.

Confiamos nas enciclopédias, como se elas tivessem sido escritas impessoalmente, e acreditamos na imprensa, como se a imparcialidade fosse possível, mas desconficamos uns dos outros.

E fazemos isto o tempo todo. Lemos as postagens com um olhar avaliativo pensando sempre se vale a pena ou não continuar seguindo aquela pessoa.

Somos faxineiros dedicados de nossas timelines, sempre criteriosos julgando, avaliando e varrendo prá fora as idéias desagradáveis e os comentários que não aceitamos.

Com isso estamos recriando nas redes o que já temos no mundo presencial de sobra: total controle sobre as pessoas com quem nos relacionamos.

A rede é um risco a ser vivido por cada um de nós! Sem esta abertura pessoal, sem esta coragem básica de escutar o que o outro diz a partir do contexto que o outro está vivendo, não pode haver um relacionamento, serão apenas meras interações.

Os iguais se aproximam, guiados por sentimentos de pertencimento e auto-proteção, e aí está o paradoxo, por mais que a rede seja um infinito de possibilidades e transformações, enquanto você se conectar ao seus clones, seguirá sendo sempre apenas o bom e velho você mesmo.

É isto que nos torna sózinhoa em uma multidão e agora, isolados em uma rede, com muitos amigos e seguidores, perambulando em lugares que merecem um checkin, mas que são meros cenários de um mundo que só existe de cada um de nós.

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  1. Beatriz Villar

    Fiquei encantada com a profundidade e densidade dos seus pensamentos, dos quais compartilho. Se podemos usar as redes sociais para conhecer pessoas como você, já faz valer o dia e quem sabe muito mais!!!

    Responder

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